Contos escritos por Lieza Neves para o espetáculo “Vozes e Memória” (2023):
Japonês Andarilho
Andava, andava, o andarilho. Não falava. Com gestos pedia e agradecia pela comida, de venda em venda, de casa em casa. Andava na cidade e em outras. Seu trajeto era circular: Brusque, Itajaí, Tijucas, São João Batista, Brusque.
Os motoristas de ônibus, observando a rota costumeira, lhe deram um apelido: Só Vai. De tempos em tempos, voltava.
Por não dizer palavra e ter os olhos pequenos, era chamado de Japonês. Dormia em algum galpão, na olaria, numa fábrica. Por não dizer palavra, não se sabia nada sobre ele.
As roupas eram inusitadas. Feitas de plástico, como um tecido impermeável, protegiam o corpo do homem da chuva e do frio. Até os sapatos eram forrados desse plástico. A figura fantasiada de estrada, andava e andava. Lá vinha o Japonês Andarilho!
Às vezes era visto com um saco nas costas. Em outras trazia latas penduradas na cintura. Não carregava história. Não dizia palavra.
Diz que era um índio desgarrado da sua tribo.
Diz que cumpria promessa depois que a mulher ficou doente.
Diz que foi roubado pelos filhos, que tomaram sua terra. Por isso ele virou andarilho e cada vez que passava na frente do local, pegava um punhado da terra e levava com ele. Diz que tanto andou que um dia a estrada o levou.
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Zé Navalha
O homem que se alimentava da noite. A vida boêmia, os jogos, os negócios, tudo na noite tinha encanto. Perfume e bebidas, encontros fortuitos, segredos. O homem que se alimentava da noite, nela foi rebatizado. Na madrugada, um carteado provocava tensão. Um gole. Blefe e aposta. Batida. Fumaça e nervos. Mais um gole. Outra batida. Um vencedor e um perdedor. Briga.
O homem que se alimentava da noite, puxou do bolso a ameaça a quem o peitava. O outro, rápido, esquivou-se, mas a lâmina deu o recado em sua testa. A cicatriz para sempre explicava: Foi o Zé Navalha!
O homem que se alimentava da noite fez dela seu negócio. Administrava jogatinas e corpos femininos. Vendia prazeres.
Mas também negociava o silêncio. Homens casados, homens importantes, conhecidos, ricos e comprometidos. O homem que se alimentava da noite também fazia comércios pela manhã e nas tardes, quando as desconfianças são brandas. A luz do dia faz-se cortina para a devassidão e a imoralidade. Havia fascínio em desafiar o sigilo. Havia riscos.
Instante de perigo. O irmão de um cliente antigo chega com o alerta: sua cunhada estava a caminho, armada, em busca do marido. Logo a mulher chega num táxi, furiosa, entrando de quarto em quarto. Vasculhou tudo. E nada. Mais um truque de mágica, ágil artimanha do homem que se alimentava da noite.
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Tereza Doida
Doida. Perambulava de lá pra cá, de cá pra lá. Falava e conversava, mesmo sozinha. Usava sempre mangas compridas, mesmo no calor. Um lenço na cabeça, um guarda-chuva preto, mesmo quando não chovia. Doida.
Ela não gostava de ser chamada assim. Dizia que era apenas Tereza. A confusão mental sempre gerou compaixão e assim, durante sua vida, lhe deram lugar para dormir, o que comer e vestir. Se ficava doente, procurava o Doutor Nica que nunca lhe cobrou consulta. Às vezes levava como pagamento algumas frutas. Quase sempre o remédio que precisava era atenção.
Morou em Dom Joaquim e depois Águas Claras, mas em todos os cantos da cidade era conhecida.
Às vezes estava em humor de tagarelar. Em outras, preferia silêncio. A criançada atiçava, ria e provocava a mulher que passava em frente aos portões das casas. Doida. A palavra lhe atravessava dolorida e virava furor. Se o braço alcançava, batia com o guarda-chuva. Quando faltava gesto, batia com a voz gritada em palavrões. A raiva fazia voar o lenço da cabeça e revelava um coque que se desfazia em longa cabeleira negra. Por causa da cena, parecia mais insana.
Diz que a Tereza ficou assim depois de perder um filho.
Alguns contam que morreu ainda bebê. Outros dizem que foi doado após o nascimento, pela família que não aceitava a gravidez da moça solteira. De passo em passo, de dor em dor, o pensamento caótico concebeu a doída Tereza Doida.
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Fanny
A casa da professora Fanny recebia alunos diariamente. Em vez de lousa – o piso onde dançavam bolero e valsa. Em vez de cadernos – copos com whisky e gelo. As lições no geral versavam sobre boas maneiras.
Os moços da cidade muitas vezes eram levados pelo pai, para ter na casa da professora Fanny a iniciação nas artes libidinosas.
Naquele lugar moravam e trabalhavam as moças que ela contratava para realizar as aulas “práticas”. Era a época em que as moças de família deveriam casar virgens e os moços tinham que provar a macheza o quanto antes, assim que o primeiro fio de barba despontava na cara.
A professora Fanny ensinava aos solteiros como tirar uma dama para dançar e como percorrer com carinho o corpo feminino. Aos casados que vinham praticar o que não esperavam de suas esposas, instruía sobre responsabilidade. Diz que uma vez
encontrou a esposa de um cliente na rua. A mulher lhe disse que sabia que o marido frequentava a casa, e que estava gastando mais dinheiro lá do que com os filhos. A professora recomendou ao homem que não mais viesse, pois a família deveria ser prioridade.
Religiosa, elegante, sábia. A mulher que havia chegado à cidade fugida de um casamento dolorido, deixou filhos e passado abastado. Recomeçou sozinha, do zero. De batom e flor no cabelo desfilava em sua bicicleta, sem baixar a cabeça, cumprimentando a todos com alegria. Ciente de seu papel social, tinha orgulho do ofício que a sustentava.
Por tudo, era respeitada pela comunidade, não apenas tolerada – a professora da casa de tolerância.
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Timbé
“Cê pensa qui Timbé é tolo, é?”
Lá vinha ele: faca na cintura, cara de brabo. Ai de quem olhasse atravessado! Timbé nunca fez mal a ninguém. A valentia era apenas o jeito de se sentir herói. Nas crianças causava medo, mas também curiosidade. Aos adultos gerava boas histórias, risadas em mesas de bar.
Na rua São Pedro, Timbé morava numa casinha de madeira com a mulher “Titíla”. Assim ele chamava Cecília, que alguns apelidaram de Cintura Fina. Diz que ela fazia cinco pontinhos de batom vermelho em cada bochecha e espalhava com o dedo pra ficar com o rosto corado.
Timbé andava pelas ruas da cidade. A parada obrigatória era a venda do Doquinha. Ali se abastecia da “catatinha” que muitas vezes o impedia de seguir caminhando. Então, era recolhido pela Titíla.
Diz que uma vez, inspirado pelo filme do Tarzan, o Timbé se aventurou a mergulhar em uma lagoa, que ficava no centro. Há quem diga que foi numa represa que ficava onde hoje é o Zoobotânico e que fornecia água pra estátua da Joana, que também era uma fonte. Como estava desativada, a represa servia de piscina a muitas crianças e era conhecida como Cucaracha! Tinha uma grossa camada de lodo no fundo, talvez por isso parecia uma lagoa. Pois diz que o Timbé subiu numa árvore, com faca e tudo e pulou na água, dizendo que ia matar um jacaré: “Tarzan matar tacalé”. Pulou de cabeça e ficou enterrado no lodo, com as pernas balançando pra fora. Sorte que tinha gente por perto pra resgatar o nosso herói. Assim, ele pôde continuar por muitos anos percorrendo as ruas da cidade, impondo respeito: “Cê pensa qui Timbé é tolo, é?”
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Pedro Pellenz
Pra quem mora na divisa entre Brusque e Guabiruba, na Rua São Pedro, é comum a pergunta: moras pra baixo ou pra cima do morro do Pedro Pellenz? Pois foi ali que viveu o cidadão conhecido por todos, numa casa simples, com árvores de frutas e mais de 40 gatos. Todos os dias saía a pé, usando o traje costumeiro: terno preto, chapéu, guarda-chuva pendurado no braço e chinelos de dedo presos com elástico nos calcanhares. Além da figura, tinha um jeito de andar particular, que de longe o identificava.
“Bom dia” – tirava o chapéu e cumprimentava cordialmente cada pessoa em seu caminho.
Diz que ele teve uma olaria, herdada do pai, mas perdeu todo o dinheiro. A casa não tinha energia elétrica nem água encanada, o banheiro era o mato. Diz que recebeu ajuda de um refugiado da segunda guerra, a quem abrigou por um tempo.
“Boa tarde” – às vezes tocava uma gaita de boca e fazia o trajeto de volta de ônibus. Parava nos mercados e casas recolhendo doações de alimentos para os gatos. Diz que ao lado da sua casa tinha um pequeno cemitério, com túmulos feitos de barro. Ali foram enterradas as vítimas de uma epidemia de varíola que ocorreu na região. Os vizinhos diziam que o homem não se alimentava bem, comia sobras estragadas, bichos que caçava. E que também não cuidava da higiene. No dia em que morreu, a caminho do hospital, pediu para parar na igreja e pagar o dízimo. Depois chamou um padre para se confessar. Diz que ele morreu em paz.
“Boa noite, Pedro Pellenz”.