causos

Diz que no Café Pigalle, no centro de Brusque, ocorria o encontro dos políticos e empresários da cidade. Na época do regime militar, o DOPS havia proibido os jogos e apostas nos estabelecimentos. No Pigalle inventaram um jogo para burlar essa questão: cada jogador pegava um pires com açúcar e apostavam onde a mosca pousaria primeiro. Diz que o jogo era tão divertido que só encerrava quando as moscas iam dormir.

Diz que em 1954 a imagem de Nossa Senhora de Fátima veio de Portugal a Brusque e houve um grande desfile no centro da cidade. Enfeitaram as ruas com bandeirinhas e muitas pessoas se deslocaram de outras cidades para ver o cortejo. Porém, pela quantidade de pessoas, muita gente não conseguiu avistar a imagem.

Diz que havia uma venda em Brusque em que o dono enquanto atendia os clientes se apoiava sobre os queijos no balcão.

Diz que na Guabiruba havia um homem que por alguma deficiência intelectual era tido como bobo, apelidado de Fificutz. Parece que o apelido vem de uma tradução de “magrelo” para um dialeto do alemão. Ele andava pelas ruas e as crianças brincavam com ele. Como era muito ingênuo caía em pegadinhas e acreditava em lorotas. Um grupo de crianças, certa vez, amarrou uma nota de dinheiro em um fio transparente e deixou no caminho do Fificutz. Ele parou sua bicicleta e quando foi pegar o dinheiro, as crianças puxaram o fio, deixando o homem furioso, chamando palavrões. 

Diz que a Fanny – famosa proprietária de uma casa de tolerância em Brusque – tinha um caderninho onde anotava os nomes dos clientes que consumiam os serviços de sua casa e deixavam para pagar depois. Depois de tentar fazer as cobranças dos atrasados ela foi num programa de rádio e, ao vivo, anunciou que se os clientes que lhe deviam não pagassem, ela iria ler seus nomes na rádio.

Diz que um professor numa escola isolada na Guabiruba costumava brincar de benzer seus alunos na hora do recreio. As crianças tinham feridas nas pernas, chamadas popularmente de “cabeça de burro”. O professor pegava um raminho e uma caneca com água e, fazendo os movimentos de benzimento, repetia um verso que aprendeu com seu avô: Te benzo, te curo, cabeça de burro! Te benzo, te arrenego, cabeça de prego! As crianças se curavam naturalmente em alguns dias e a mãe de uma delas, procurou o professor por conta de uma dor se cabeça intensa. Ela queria a benção para se curar. O professor, mesmo envergonhado, foi a sua casa e rezou um Pai Nosso em latim. Diz que a mulher melhorou e lhe presenteou com um galo inglês. 

Diz que havia um bêbado que estava voltando pra casa na madrugada e passou pelo cemitério que existia atrás da igreja matriz, no centro de Brusque. Como não estava mais conseguindo caminhar, ao ver uma cova aberta, deitou lá e dormiu. Ao amanhecer, o padeiro que passava com a carroça vendendo pães, tocou a sineta. O bêbado levantou e perguntou: Que horas são? Vendo o homem sair da cova o padeiro levou um susto, derrubou os pães da carroça e saiu gritando apavorado.

Diz que a menina tinha ganhado um anel de sua irmã. Na escola, tirou o anel do dedo pois ele incomodava ao escrever e botou debaixo da carteira. No final da aula, não encontrou o anel. Chegou em casa dizendo para a mãe que alguém tinha lhe roubado. A mãe foi numa senhora que morava na sua rua, no bairro Santa Terezinha, em Brusque, e que rezava responso. Segundo a menina, no dia seguinte, ao olhar embaixo da carteira, lá estava o anel.

Diz que durante o casamento na igreja matriz de Brusque, o tio da noiva que era boleeiro de um dos carros de mola que fazia o cortejo, foi dar água para os cavalos no rio. Ao passar em frente a Confeitaria Kohler, o cavalo disparou e bateu num poste. O homem ficou gravemente ferido e foi levado ao hospital da Azambuja. No fim da cerimônia, os noivos receberam a notícia. Fizeram a fotografia no ateliê do fotógrafo que ficava ali perto e seguiram para o hospital. A moça entrou no hospital vestida de noiva e não lembra onde deixou o buquê. 

Diz que três amigos de Guabiruba estavam numa festa bebendo. Na volta para casa, tinham de passar por um riacho onde havia uma ponte improvisada feita com uma tora de madeira. Um deles estava muito bêbado e acabou caindo na água. Os dois amigos o ajudaram a sair e levaram-no para casa. Entraram pelos fundos, pela cozinha, sem fazer barulho para não acordar os pais do rapaz. Deitaram o amigo na cama e então perceberam que ele estava sem sua dentadura. Voltaram ao riacho, encontraram a dentadura na beirada, suja de barro e levaram até a casa do amigo. Deixaram em cima da mesa da cozinha.  

Diz que o menino aos 16 anos foi num sítio pegar cana e viu uma menina, com cerca de 12 anos. Ele ficou admirado pois ela ariava um caldeirão num pocinho. Ariava tanto, tanto, que o objeto brilhava como alumínio. Ele ficou admirando, pensando em como ela era “trabalhadeira” e seria uma boa esposa. Alguns anos depois eles se casaram. 

Diz que o prefeito de Brusque Arthur Germano Risch passou a exigir que as pessoas o cumprimentassem na rua e, por isso, foi criado o bloco de carnaval “Tem que cumprimentar”.

Diz que numa praia próxima a Brusque uma mulher tomava banho de mar e não percebeu quando uma onda forte tirou a parte de cima do seu biquíni. Outra mulher que passava na areia viu a cena e resolveu alertá-la em alemão, já que na época era comum as pessoas falarem o idioma. Ela então gritou: “Die brüste, die brüste” – que significa “os seios”. A mulher dentro do mar respondeu, bem contente: “ja, ja, de Brusque”. 

Diz que o Mão de Onça entrou numa igreja e tocou o sino. O padre entrou e ele então se escondeu. Percebendo que havia alguém ali o padre perguntou: “Quem está aí?”. O Mão de Onça, escondido, falou com aquele seu sotaque carregado: “É um anxo!”. O padre, entendendo a situação, provocou: “Se é um anjo, então voa!”. Foi aí que o Mão de Onça respondeu: “Não posso, sou um filhotón!”.

Diz que o Mão de Onça entrou numa loja para comprar uma lambreta. Com seu sotaque alemão forte disse: “Moça, eu querrria uma lamprrreta”. A balconista então respondeu: “Então o senhor deve ir na loja de aviamentos. Lá tem lã preta, lã branca, lã de tudo quanto é cor”.

Diz que após uma bela defesa de gol, o time corre até o goleiro Mão de Onça, ainda caído no chão. Ele grita: “Me abrrraça, me abrrraça!” Todos pulam sobre ele, num grande abraço coletivo. Eis que de lá de dentro, gemendo, ele fala: “Não, seus purro, minha braça tá quebrrrada!”.

Diz que havia uma fila enorme na rodovia e o Mão de Onça queria passar na frente. Por isso, ele foi dizendo; “Teixa eu passar, teixa eu passar, é meu parrrente, é meu parrente!”. Tratava-se de um cavalo atropelado.

Diz que uma pessoa perguntou para o Mão de Onça num bar que hora era. Ele respondeu com seu sotaque alemão: “Téis pas téis”. O atendente que ouviu só a resposta lhe trouxe então “dez pasteis”.

Diz o Mão de Onça foi para Blumenau no banco Cepisa. Como ele não sabia onde ficava, perguntou a uma pessoa na rua: “Onte fica o Se Machuca?” Ao saber do nome correto do banco, ele arrematou: “Ah, se pisa, se machuca, é tudo a mesma coisa!”.

Diz que um grupo de crianças aguardava o ônibus de volta para casa na praça do centro de Brusque, por volta do meio-dia. Ali sempre passava a Tereza Doida. Eles sempre provocam a mulher, porque ela ficava brava e chamava palavrões. Bastava que gritassem “doida” e ela corria atrás com seu guarda-chuva preto, tentando bater em que tinha lhe ofendido. Um dos locais seguros para se esconderem dela era a farmácia Avenida.

Diz que havia três moças que sempre passeavam juntas pela cidade e chamavam atenção por estarem sempre muito arrumadas e coloridas. Eram conhecidas pelos apelidos de Maionese, Sobremesa e Vanderléia (em alusão à cantora da Jovem Guarda). Parece que divulgavam uma casa de tolerância do bairro Souza Cruz, conhecida como Zona do Ismael.

Diz que na época do alistamento dos moços para a guerra, um deles querendo escapar disse que era surdo. O general liberou ele, mas antes de ele sair, jogou uma moeda no chão. Logo o moço virou-se e, assim, foi convocado.

Diz que quando morria alguém, como tinha que se construir o caixão de um dia para o outro, até ficar pronto, improvisavam com uma porta arrancada sobre duas cadeiras, onde colocavam o defunto deitado.  

Diz que em Guabiruba o delegado tinha uma sorveteria e embaixo dela, num porão, ficava a prisão. Nunca era usada, mas uma vez precisou prender um homem. O presidiário foi enviado ao porão, mas no meio da madrugada, vendo que a porta não estava trancada, ele fugiu. Antes de sair, tomou sorvete e ainda deixou um bilhete agradecendo.

Diz que havia um homem conhecido por sempre bater o sino da igreja matriz, chamado Waldemar Zendron.

Diz que antigamente a Rua São Leopoldo em Brusque era chamada de Tripa de Boi, por conta de muitas curvas.

Diz que a Madalena Doida costumava dormir nas varandas das casas ou em fábricas e acabou morrendo porque os funcionários não perceberam que ela estava dentro de uma máquina dormindo.

Diz que no bairro Santa Terezinha em Brusque viveu o padre João da Cruz. Ele começou a fazer missa dentro do engenho de arroz. Ele passava para trabalhar na roça e entregava balas para as crianças.

Diz que tinha dois homens que se vestiam de Peltznickel na época do Natal, no bairro Guarani em Brusque. Usavam máscaras, galhos e sacos de linhagem pendurados nas costas. Assustavam as crianças. 

Diz que havia um homem que bebia muita cachaça. Quando o bar fechava, ele deitava na carroça, bêbado, e os cavalos o conduziam para casa.

Diz que uma mulher tinha feito doces e mandou para a amiga, como presente. Como o filho da amiga passava sempre em frente a sua casa, no bairro Guarani, em Brusque, na volta da escola, entregou ao menino a lata com os doces. No dia seguinte, a mãe mandou a lata vazia pelo filho, para ser entregue à amiga. No caminho havia muita bosta de cavalos, o que era comum na época. O menino resolveu aprontar e encheu a lata. Entregou a mulher dizendo que eram biscoitos.

Diz que tinha um homem que não falava bem o português, só o alemão. Na época em que era proibido falar alemão, ele estava aprendendo o idioma do Brasil, mas quase sempre fazia confusão. Uma vez chegou na casa de amigos dizendo que tinha dor na estrela. Isso porque em alemão, estrela é stern e testa é stirn, duas palavras bem parecidas. 

Diz que na Guabiruba fizeram uma procissão, toda em alemão. Era uma estrada de barro, todos caminhavam e rezavam. A cada prece, as pessoas diziam: Rogai por nós! Então uma mulher disse, em alemão: Cuidado com a poça d´água. E o coro, sem entender alemão, repetiu: Rogai por nós!

Diz que uma menina de 7 anos ao subir num pé de bergamota acabou enfiando um espinho no pé. Como na época não havia muitos recursos, uma semana depois a menina morreu, porque teve tétano.

Diz que um grupo de pessoas em Guabiruba saía pelas ruas na noite de Ano Novo. Paravam nas casas, recitavam um verso em alemão e soltavam foguetes, feitos de forma artesanal. 

Diz que na enchente de 1961 em Brusque, uma mulher com seu filho, no centro, entraram numa canoa para sair de casa. A canoa acabou virando e os dois morreram.

Diz que antigamente o bairro Guarani, em Brusque, era conhecido somente por “lá nos Petruschky”, em referência a três casas próximas onde viviam familiares com este sobrenome.

Diz que para falar na frente das crianças sobre assuntos de adulto, usavam expressões metafóricas. O pai comenta com a mãe sobre a comadre, dizendo que “o forno dela ainda não havia caído”. Significava que ainda não tinha tido bebê, pois estava grávida. Dias depois, chega em casa dizendo que “o forno da comadre caiu”. A filha pequena, ao ouvir isso, lamentou: “Que tristeza! Como os filhos dela vão comer pão?”

Diz que a menina e sua irmã foram cortar o cabelo pela primeira vez fora de casa, num salão onde também funcionava uma sorveteria, em Guabiruba. O proprietário também era o delegado da cidade. As meninas foram de bicicleta e lá dentro ficaram de olho no sorvete. Não tinham dinheiro para comprar, mas o dono ofereceu a casquinha do sorvete de graça. Após comerem muitas casquinhas, a primeira sentou-se para ter o cabelo cortado. O dono não era cabeleireiro, e sim barbeiro, então o cabelo ficou curto, como os meninos usavam na época. Depois foi a irmã, que teve o mesmo corte feito. Ao chegarem na escola no dia seguinte, as duas foram alvo de risadas.

Diz que um senhor ganhou de presente um galo inglês criado pelo Ginoca num sítio na rodovia Antônio Heil, em Brusque. O galo recebeu o nome de Ginoca e tornou-se um campeão de brigas na cidade e em outras. O animal, depois de alguns anos, criou um calo nos pés de tantos treinos e brigas e parou de competir. 

Diz que a Panificadora Razibel que pertencia a Arno Imhof recebeu esse nome em homenagem à rainha Isabel e a sua esposa: RA (rainha), ZI (Zitha – nome da esposa) e BEL (Isabel).