Memórias de tipos humanos que marcaram uma localidade e época, seja por sua forma de falar, seu comportamento, seu caráter popular e carismático, ou até mesmo assustador.
Cantorinho
Passava nas casas na véspera de Natal para cantar “Noite Feliz” e ganhar um presentinho. Divertia as crianças e beijava tudo o que estivesse em seu caminho – de pessoas e postes! Beijava os ônibus e assim ganhava passagem de graça. Passava nas casas convidando para o seu aniversário e, no dia seguinte, passava desfazendo o convite. Tocava gaita e seu lugar favorito era a rodoviária.
Fanny
Conhecida por ser proprietária de uma casa de tolerância no bairro Santa Terezinha, em Brusque, era natural de Ibirama. Seu nome era Francisca dos Anjos de Lima e Silva e pertencia à tribo dos indígenas botocudos. Foi casada com Eduardo e teve seis filhos. Abandonou o casamento opressor e os filhos, vindo a fixar residência em Brusque. Costumava andar pelas ruas com sua bicicleta que possuía uma rede ao redor das rodas para que sua saia não entrasse pelos raios. Cumprimentava a todos e tocava a sineta. Era respeitada e admirada por seu charme e elegância.

Folhagem
Era uma mulher muito chamativa, tinha o cabelo colorido de verde, ou azul, mal cuidado. Usava batom de cores fortes, brincos grandes, badulaques e estava sempre enfeitada – por isso seu apelido. Morava em cima do casarão do Dr. Nica.
Ginoca
Nascido em Camboriú, mudou-se jovem para Brusque. Trabalhava na fazenda de Augusto Maluche. Morava no bairro Limoeiro. Era conhecido por desfilar em sua carroça puxada por mulas pelas ruas da cidade, brincando com as crianças a quem distribuía doces. Quando as pessoas iam caçar na fazenda, no meio do laranjal, costumavam receber pouso na casa dele. À noite, sob a luz das lamparinas, ele e os filhos cantavam e ele contava causos e histórias de assombração.

Japonês andarilho
Era um homem que não falava e caminhava com frequência entre Brusque, Itajaí, Tijucas e São João Batista. Por ter os olhos pequenos e não falar, deram seu apelido. Usava roupas feitas de plástico, assim como sapatos. Trazia um saco nas costas e latas penduradas na cintura. Dormia em fábricas, varandas, galpões.

João Bugre
Menino indígena pertencente à tribo XoKleng, sobrevivente de um massacre e adotado pela família Schaefer. Recebeu o nome de João Indaya. Na juventude jogava futebol no primeiro clube de Brusque, o Sport Club Brusquense. Trabalhou na fábrica Renaux e lá sofreu um grave acidente com soda cáustica, queimando sua perna. Depois trabalhou na Casa ABC. Era religioso e cantava muito bem. Casou-se e teve dois filhos adotivos. Seu nome ficou conhecido quando desfilou no carnaval em um carro alegórico chamado “A maloca do bugre”, representativo dos povos nativos da região. Morava no bairro Santa Terezinha.

Jorginho Vinotti
Andava pelo centro de Brusque, vendia laranjas perto de onde ficava a alfaiataria Krieger. Se assobiassem para ele ficava furioso. As crianças provocavam e ele xingava.
Ludovico Witkowsky
Morava no bairro Santa Luzia em Brusque e não falava bem o português, apenas o polonês. Gostava de frequentar bares e era conhecido pelo gênio forte. Brigava e xingava em polonês, o que causava medo nas pessoas, mas também era motivo de risadas, tornando-o uma atração nas ruas por onde passava. Foi criado um verso: “Lá vai seu Ludovico, pedindo penico, falando em polaco e fumando tabaco”.
Madalena Doida
Passava pelo bairro Águas Claras e recebia comida dos moradores, durante mais de 10 anos. Ninguém sabia seu nome completo, nem de onde veio. Mulher alta, velha e maltrapilha, tinha as mãos e o rosto sempre sujos do pó da estrada. Contam que quando nova era bonita e cedo “caiu na vida”. No bairro era a festa dos moços, mesmo suja e piolhenta. Pagavam pelos serviços mesmo sob condições de higiene precárias. Carregava um saco nas costas e tinha os cabelos cobertos por um lenço. Trazia potinhos para tomar água, uma vez que os moradores tinham nojo de emprestar os seus copos. Gostava de ganhar roupas e as vestia imediatamente, uma peça por cima da outra. Gostava de conversar e contar histórias, apesar do pensamento confuso que a fazia trocar datas e nomes. Falava da infância pobre e dos pais. Passava a noite na varanda de uma velha casa abandonada no bairro Águas Claras e, ali, fazia os serviços sexuais. Durante o dia caminhava, cantava, chamava palavrões e levantava a saia, como forma de ataque a quem a provocava. Como nunca usava calcinha, acabava mostrando “tudo”. Contavam que ela ficou doida depois de um episódio em que levou um susto durante o período menstrual. Os antigos acreditavam que isso fazia o sangue subir para cabeça ao invés de descer, roubando a sanidade. Como não tomava banho e tinha uma vida sexual desprotegida, teve uma doença venérea. Dizem que ela morreu na enchente de 84 quando dormia na rodoviária.
Mão de onça
Morador de Guabiruba, recebeu o apelido devido ao tamanho de sua mão, quando jogava futebol. Diversas histórias em tom de anedota são atribuídas a ele. Tinha sotaque alemão muito forte. Seu nome era Genésio Gums.

Mario Galassini
Gostava de divertir as pessoas fazendo caretas e colocando muitos alimentos de uma vez só em sua boca. Também levava a ponta da língua até em cima do nariz, causando admiração. Participou do programa de TV Cidade contra Cidade, apresentado por Silvio Santos.

Pedro Pellenz
Morador da rua São Pedro entre Brusque e Guabiruba, caminhava pela cidade diariamente, usando sempre um terno preto, chapéu e chinelos de dedo presos com elástico nos calcanhares. Trazia um guarda-chuva pendurado no braço e tinha um jeito de caminhar bem particular. Sua casa era simples e tinha mais de 40 gatos. As crianças costumavam ir até lá para pegar frutas e brincar no terreno. Quando passava pelas pessoas na calçada tirava seu chapéu e cumprimentava. Ao lado de sua casa havia um pequeno cemitério com túmulos feitos de barro. Hoje o local é conhecido como “Morro do Pedro Pellenz”.

Tereza Doida
Era moradora do bairro Dom Joaquim e depois de Águas Claras em Brusque. Tinha esse apelido devido aos problemas mentais. Caminhava pela cidade, usando sempre um lenço sobre a cabeça, roupas de mangas compridas e trazia um guarda-chuva preto. Quando a provocavam, chamando de doida ou gritando, ela batia com o guarda-chuva ou dizia muitos palavrões. Contam que ela ficou louca depois de ter perdido um filho. Alguns dizem que ele morreu ainda bebê. Outros narram que ele foi doado logo após o nascimento pela família de Tereza, por não aceitar uma gravidez sem casamento.
Timbé
Nascido em Tijucas, veio morar em Brusque, no bairro São Pedro, e casou-se com Cecília, cujo apelido era Cintura Fina. Caminhava pelas ruas e tinha um jeito particular de articular as palavras, trocando o C pelo T, por exemplo. Gostava de parar nos bares para tomar uma “catatinha”. Seu nome era João da Silva.

Zé Navalha
Foi dono de casas de jogos e prostituição em Brusque. Seu nome era José da Silva. O apelido surgiu numa noite de carteado na casa de um vizinho. Depois de uma discussão, ao apontar sua navalha ao rival, num gesto descuidado, a lâmina passou na testa do homem. Trabalhou como oficial de justiça, foi tecelão, corretor de seguros e teve uma banca de revistas. Mas foi como dono de bares e boates que ficou conhecido e reconhecido até falecer aos 99 anos.

FOTOS: Arquivo Curto Fotos Antigas de Brusque (Facebook)